DJI está banida nos EUA — e o que isso significa para o mundo dos drones

Em dezembro de 2025, a FCC adicionou a DJI à sua lista de restrições por segurança nacional. Novos modelos não podem mais ser importados ou vendidos nos Estados Unidos.

Lucas Buzzo 6 min de leitura
DJI está banida nos EUA — e o que isso significa para o mundo dos drones

A DJI domina o mercado de drones de consumo e profissional há anos com uma margem que poucos setores da tecnologia conseguem replicar. Estima-se que a empresa chinesa controla algo em torno de 70% do mercado global. Seus equipamentos estão nas mãos de cinegrafistas, jornalistas, engenheiros, agricultores, bombeiros e entusiastas em praticamente todos os países do mundo.

Mas desde o dia 23 de dezembro de 2025, os Estados Unidos disseram: não mais. Pelo menos não com novos modelos.

A FCC (Federal Communications Commission) — a agência regulatória americana responsável pelas comunicações — adicionou a DJI e outros fabricantes estrangeiros de drones à sua Covered List, uma lista de empresas consideradas ameaças à segurança nacional americana. O efeito prático é imediato: nenhum novo modelo de drone DJI pode receber autorização da FCC, o que na prática bloqueia a importação e a venda de novos produtos no território americano.

Como chegamos até aqui

Não é de se surpreender que essa decisão tenha sido precedida de anos de tensão política e debates sobre privacidade de dados. O pano de fundo é a preocupação dos EUA com a possibilidade de que drones fabricados na China transmitam informações sensíveis para servidores chineses — imagens aéreas, coordenadas GPS, dados de telemetria.

A DJI sempre negou qualquer compartilhamento inadequado de dados. A empresa chegou a lançar um modo especial chamado Local Data Mode, que bloqueia toda transmissão durante o voo, justamente para tranquilizar operadores preocupados com privacidade. Mas a desconfiança por parte do governo americano nunca desapareceu.

O que selou o destino da DJI nos EUA foi o NDAA (National Defense Authorization Act) de 2025, que estabeleceu um prazo de um ano para que alguma agência federal americana conduzisse uma auditoria de segurança independente na empresa. Se nenhuma agência completasse a revisão até o prazo, a DJI seria automaticamente adicionada à lista restrita da FCC.

O prazo venceu. Nenhuma agência completou a auditoria. E a restrição entrou em vigor automaticamente, no dia 23 de dezembro de 2025.

O que está proibido — e o que não está

Aqui é importante ser preciso, porque esse é um ponto que gerou muita confusão nas primeiras semanas.

O que a restrição proíbe: qualquer novo modelo de drone DJI que ainda não tenha recebido autorização prévia da FCC não pode ser importado ou vendido legalmente nos Estados Unidos. Isso congela, na prática, todo o pipeline de novos produtos da empresa no mercado americano.

O que a restrição não proíbe: quem já tem um drone DJI com autorização prévia — e isso inclui modelos populares como o Mavic 4 Pro, Mini 5 Pro, Air 3S, DJI Neo 2 e praticamente todos os lançados antes de dezembro de 2025 — pode continuar voando normalmente. Não há nenhuma ordem de interdição de voo da FAA, nenhum bloqueio remoto, nenhuma exigência de devolver os equipamentos.

A mensagem é clara: o que está nos céus pode continuar. O que não chegou ainda, não chega mais.

O problema real para quem usa DJI

A proibição de novos modelos é, em si, uma questão do mercado americano. Mas existe um efeito colateral que afeta operadores em todo o mundo, incluindo no Brasil: a incerteza sobre o suporte futuro aos equipamentos já existentes.

Sem acesso ao maior mercado de consumo do mundo, as perspectivas financeiras da DJI mudam. A empresa pode reduzir investimentos em firmware, suporte técnico, reposição de peças e atualização de aplicativos. Baterias, hélices, partes de reposição — tudo isso tende a ficar mais escasso e mais caro para quem tem equipamentos da marca.

Não é algo que acontece da noite para o dia. Mas quem depende de drones DJI profissionalmente — e são muitos no Brasil — precisa começar a pensar em estratégias de médio prazo.

O impacto no Brasil

O Brasil não adotou nenhuma restrição equivalente à americana. Por aqui, a DJI continua sendo vendida normalmente, os modelos continuam sendo importados, e nada indica que isso vai mudar no curto prazo. A ANAC não sinalizou nenhuma revisão da situação da empresa no país.

Mas o que acontece nos EUA inevitavelmente reverbera globalmente. A DJI é uma empresa que depende de escala para manter seus preços acessíveis. Perder o maior mercado de consumo do planeta é uma pancada significativa — e empresas alternativas, que até então tinham dificuldade de competir com a DJI em custo e qualidade, passam a ter um espaço muito maior para crescer.

As alternativas existem — mas têm preço

Para quem está nos EUA e precisa substituir equipamentos, as opções mais citadas são:

  • Skydio — empresa americana, forte em autonomia e rastreamento inteligente. Cara, mas com desempenho sólido.
  • Freefly Astro Prime — voltado para uso profissional e cinematográfico de alto nível.
  • Autel Robotics — curiosamente também de origem chinesa, mas ainda não listada como ameaça pela FCC.
  • HoverAir e Potensic — alternativas mais acessíveis, com ecossistemas menores.

Nenhuma dessas tem a profundidade de produto, a comunidade, os acessórios e a curva de preço que a DJI construiu ao longo de uma década. Esse legado não se copia de um dia para o outro.

O que esperar daqui para frente

Há três cenários possíveis para os próximos meses.

O primeiro, e mais improvável, é uma reversão da decisão — seja por via judicial, seja por uma mudança de postura do governo americano. Dado o clima político atual, isso parece distante.

O segundo é uma acomodação: a DJI encontra formas de operar através de subsidiárias ou parcerias que contornem as restrições — algo que empresas chinesas já fizeram em outros setores da economia.

O terceiro, e talvez o mais interessante para o setor, é uma reorganização do mercado: fabricantes americanos, europeus e de outros países preenchem o vácuo deixado pela DJI, e o mercado de drones — que estava concentrado numa única empresa dominante — se diversifica de forma saudável.

Seja qual for o desfecho, o dia 23 de dezembro de 2025 vai entrar para a história como um divisor de águas no mercado global de drones. Quem acompanha o setor há algum tempo sabe que nenhuma empresa domina para sempre. E as reviravoltas costumam acontecer exatamente quando parecem mais improváveis.


Fontes: UAV Coach | DroneLife | ASIS Online

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