eVTOL e táxis aéreos: o futuro da mobilidade urbana já chegou ao Brasil

Joby Aviation, Embraer Eve, Archer — os táxis aéreos elétricos saem do papel. Entenda o que é eVTOL e quando essa tecnologia chega às cidades brasileiras.

Lucas Buzzo 11 min de leitura
eVTOL e táxis aéreos: o futuro da mobilidade urbana já chegou ao Brasil

São Paulo tem 37 linhas de metrô planejadas desde os anos 1970. Hoje opera 6. Enquanto a infraestrutura subterrânea não chega, a solução pode estar no sentido oposto: para cima. Em dezembro de 2025, uma aeronave elétrica de decolagem vertical decolou pela primeira vez em Gavião Peixoto, interior de São Paulo — sem piloto, sem passageiros, mas com o peso simbólico de décadas de pesquisa aeronáutica brasileira. O eVTOL Brasil acabou de ganhar seu momento mais concreto.

Não é ficção científica. É engenharia aplicada, com IPO em bolsa, carteira de pedidos bilionária e data marcada para operações comerciais.

O que é eVTOL (e por que é diferente de drone e helicóptero)

A sigla vem do inglês Electric Vertical Take-Off and Landing — decolagem e pouso elétrico vertical. Na prática, é uma categoria de aeronave que combina características de helicópteros (não precisa de pista) com propulsão elétrica (sem motor a combustão) e design otimizado para transporte urbano de passageiros.

A diferença em relação aos tipos de drones que conhecemos é fundamental: drones são predominantemente não tripulados e voltados para carga ou captação de imagens. Um eVTOL é projetado para carregar pessoas — tipicamente 4 passageiros e 1 piloto, ao menos nas primeiras gerações comerciais. A escala, os requisitos de segurança e a complexidade de certificação são de outra ordem.

Em relação ao helicóptero convencional, as vantagens do eVTOL são claras. O ruído é dramaticamente menor — crucial para operações em ambientes urbanos densos. A propulsão elétrica elimina emissões diretas de CO₂ e elimina os riscos associados ao combustível de aviação. A manutenção é mais simples: motores elétricos têm menos peças móveis que turbinas. E o custo operacional tende a ser inferior no longo prazo, mesmo que o custo de aquisição inicial seja elevado.

O que torna o momento atual singular é que, depois de anos de protótipos, algumas dessas aeronaves estão chegando à fase de certificação e produção em escala.

Os principais players globais

O setor de eVTOL atraiu dezenas de empresas na última década, com investimentos somando dezenas de bilhões de dólares. Algumas não sobreviveram ao caminho. As que resistiram estão hoje em fases muito diferentes de maturidade.

Joby Aviation

A Joby Aviation é, hoje, a empresa mais avançada em termos de certificação regulatória nos Estados Unidos. Com apoio da Toyota e do Departamento de Defesa americano, a empresa acumulou mais de 1.000 milhas de voos de teste com seu eVTOL de cinco rotores. A certificação pela FAA — o equivalente americano à nossa ANAC — está em andamento e é a mais aguardada do setor.

A Joby firmou parceria com a Delta Air Lines para integrar seus táxis aéreos ao sistema de conexões de voos comerciais, com foco inicial em aeroportos de Nova York e Los Angeles. O modelo de negócio é claro: o passageiro que desembarca num aeroporto movimentado chama um eVTOL no aplicativo da Delta e chega ao centro da cidade em minutos, sem o estresse do trânsito.

Archer Aviation

A Archer Aviation aposta em seu modelo "Midnight" — uma aeronave com 12 rotores de elevação e 6 de propulsão em cruzeiro. A empresa tem parceria com a United Airlines e com a Stellantis (dona da Fiat, Jeep e Peugeot) para produção em escala. Operações comerciais foram anunciadas para 2025-2026 em Abu Dhabi e nos Estados Unidos, tornando a Archer uma das primeiras a sair do papel para a operação real.

Lilium: a história do pioneiro que quebrou e voltou

A história da Lilium merece atenção por ser, ao mesmo tempo, um alerta e uma demonstração de resiliência do setor. A empresa alemã era pioneira num conceito diferente dos concorrentes: em vez de rotores tradicionais, usava jatos elétricos distribuídos ao longo das asas — uma abordagem tecnicamente mais complexa, mas potencialmente mais eficiente.

Em outubro de 2023, a Lilium declarou insolvência. Dificuldades de financiamento, atrasos no desenvolvimento e um ambiente de capital mais restritivo derrubaram o que era uma das startups mais promissoras do setor. O impacto foi sentido no mercado inteiro.

Mas a história não terminou aí. Os ativos da Lilium foram adquiridos e a empresa foi relançada em 2024 com nova estrutura de capital e equipe. O desenvolvimento do jato eVTOL continua, agora com uma organização mais enxuta e foco mais claro nas etapas de certificação.

O Brasil na disputa: Embraer Eve

A Eve Air Mobility é a aposta brasileira nesse mercado — e não é uma startup improvisada. É uma subsidiária da Embraer, fundada em 2020 como spin-off da divisão de EmbraerX, que realizou IPO na Bolsa de Nova York em 2022 sob o ticker EVEX.

O marco mais recente e mais significativo ocorreu em dezembro de 2025: o protótipo em escala real do eVTOL da Eve decolou pela primeira vez em Gavião Peixoto, São Paulo — o mesmo centro de testes onde a Embraer valida seus jatos comerciais. O voo foi não tripulado, parte de uma sequência de testes que inclui fases progressivas de envelope de voo.

Segundo a Embraer, os próximos passos incluem testes com piloto a bordo entre 2026 e 2027, com início de operações comerciais previsto para 2027. A aeronave comporta 4 passageiros e 1 piloto, e foi projetada especificamente para rotas urbanas curtas de alta demanda.

Os números da carteira de pedidos da Eve são impressionantes para uma empresa cujo produto ainda está em fase de testes: segundo a CNN Brasil, são 2.900 unidades encomendadas, distribuídas entre 30 clientes em 13 países, totalizando US$ 14,5 bilhões em pedidos. Parte significativa desses contratos inclui operadores brasileiros.

A rota exemplificada repetidamente pelos executivos da Eve é reveladora: Faria Lima, o coração financeiro de São Paulo, até o Aeroporto de Guarulhos em 13 minutos. Pela estrada, em horário de pico, o mesmo trajeto pode levar entre 90 e 120 minutos. A equação de tempo é, em si, o argumento de venda.

A fábrica está planejada para Taubaté, no interior paulista — cidade que já tem tradição industrial e fica a poucos quilômetros de Gavião Peixoto.

Os vertiportos: a infraestrutura que falta

Um eVTOL precisa de um lugar para pousar e decolar. Entra em cena o conceito de vertiporto — a infraestrutura análoga ao heliporto, mas projetada especificamente para as características operacionais dos táxis aéreos elétricos.

A diferença é importante: vertiportos precisam incluir carregadores rápidos (os eVTOLs recarregam em 7 a 15 minutos entre voos), espaço para múltiplas aeronaves simultâneas, área de embarque e desembarque de passageiros integrada ao transporte terrestre e sistemas de controle de tráfego aéreo urbano.

No Brasil, a Infraero — empresa pública que administra aeroportos federais — está estudando a adaptação de espaços em aeroportos existentes para receber vertiportos. Mas a discussão vai além dos aeroportos: os vertiportos mais valiosos serão os que ficarem nos centros urbanos, integrados a shoppings, centros empresariais ou estações de metrô.

Definir onde eles ficam envolve questões de espaço aéreo urbano, ruído, segurança e zoneamento. São Paulo e Rio de Janeiro já têm discussões em curso, mas nenhum vertiporto operacional foi inaugurado até o momento.

Regulamentação: o que a ANAC está preparando

A Agência Nacional de Aviação Civil não está parada. O conceito regulatório em desenvolvimento é chamado de Advanced Air Mobility (AAM), alinhado com as diretrizes da EASA (Agência Europeia de Segurança da Aviação) e da FAA americana.

O desafio regulatório dos eVTOLs é substancialmente mais complexo que o dos drones convencionais. Aeronaves que transportam passageiros pagantes têm requisitos de certificação de tipo, requisitos de manutenção e inspeção periódica, certificação de pilotos (ao menos nas fases iniciais), e protocolos de segurança comparáveis aos da aviação comercial convencional.

A ANAC trabalha em conjunto com a Embraer Eve para que a certificação do eVTOL brasileiro possa ser validada simultaneamente por autoridades internacionais, o que facilitaria a exportação da tecnologia. Esse modelo de certificação conjunta foi pioneiramente adotado pela Embraer com seus jatos comerciais, e a empresa pretende replicar o processo para os táxis aéreos.

Preços e acessibilidade — quem vai usar isso primeiro?

A pergunta que todo mundo faz é a mais difícil de responder com precisão: quanto vai custar andar de eVTOL?

As estimativas mais circuladas apontam para algo entre US$ 3 e US$ 10 por milha nas operações iniciais — um valor comparável a um Uber de categoria premium ou Black. No trecho Faria Lima–Guarulhos, isso significaria algo entre US$ 30 e US$ 100 por passageiro, dependendo da fase de adoção e da competição de mercado.

A projeção de longo prazo das empresas do setor é que, conforme a frota escale e os custos operacionais caiam, o preço possa convergir para algo próximo ao de um táxi convencional executivo. Mas isso está a anos ou décadas de distância.

Na prática, os primeiros usuários serão executivos, turistas de alto poder aquisitivo e pessoas com aversão extrema a perder tempo no trânsito. O mercado de massa viria numa segunda fase, quando a infraestrutura estivesse consolidada e a competição reduzisse as tarifas.

O Brasil é um caso particularmente interessante: 37 das maiores cidades do mundo por PIB registram mais de 2 horas diárias de congestionamento. São Paulo está entre as piores do planeta. Isso cria uma disposição a pagar por tempo que poucos mercados têm na mesma escala.

Quando isso chega às cidades brasileiras

Com base nos cronogramas anunciados publicamente, a linha do tempo mais provável é a seguinte: a Eve Air Mobility prevê início de operações comerciais em 2027. Isso é consistente com o estágio atual de desenvolvimento — os testes de voo tripulado devem ocorrer em 2026, e a certificação pela ANAC precisa ser concluída antes do início das operações comerciais com passageiros.

A história dos drones nos ensina que cronogramas em tecnologias de aviação tendem a se estender — certificação é um processo rigoroso e não negocia prazos com investidores. O histórico da própria Embraer, porém, é de uma empresa que sabe navegar esse processo melhor que a maioria.

O cenário mais realista é que os primeiros voos comerciais regulares de eVTOL no Brasil aconteçam entre 2027 e 2029, inicialmente em rotas específicas de alta demanda em São Paulo. A expansão para outras cidades — Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília — dependeria da velocidade com que a infraestrutura de vertiportos for construída e do sucesso das operações iniciais.

O que está claro é que a questão não é mais "se", mas "quando".

Perguntas frequentes


Fontes: Eve Air Mobility | Embraer — Eve primeiro voo | CNN Brasil — Voo comercial táxi aéreo 2027

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