Nos Jogos de Inverno 2026, drones FPV entram nas pistas — e mudam tudo

Em Milão-Cortina 2026, 15 drones FPV com menos de 243g e velocidade de 140 km/h estão transformando a forma de transmitir os Jogos Olímpicos de Inverno para o mundo.

Lucas Buzzo 5 min de leitura
Nos Jogos de Inverno 2026, drones FPV entram nas pistas — e mudam tudo

Imagine estar dentro de uma pista de luge. As paredes de gelo passam a centímetros. O atleta à frente acelera a mais de 130 km/h. A câmera não está num suporte fixo, não está numa grua, não está num helicóptero. Está num drone de menos de 250 gramas, voando junto — dentro da pista, acompanhando cada curva em tempo real.

É isso que os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 estão entregando aos espectadores de todo o mundo. E não é exagero dizer que a experiência de assistir aos esportes de inverno nunca mais vai ser a mesma.

O que são os drones FPV

FPV é a sigla em inglês para First Person View — em português, "visão em primeira pessoa". A tecnologia não é nova para quem acompanha o mundo dos drones: pilotos de FPV racing usam óculos especiais que transmitem em tempo real a imagem captada pela câmera do drone, criando a sensação de estar voando junto com o equipamento.

O que o OBS (Olympic Broadcasting Services) — a empresa responsável pela transmissão oficial dos Jogos — fez foi transportar essa tecnologia do mundo dos entusiastas para dentro da maior transmissão esportiva do planeta. O resultado é uma cobertura que os termos tradicionais do jornalismo esportivo mal conseguem descrever.

Os números de Milão-Cortina

Os Jogos de 2026 empregam mais de 810 sistemas de câmera ao longo de todas as sedes, de Milão a Cortina d'Ampezzo. Desse total, 25 são drones: 10 drones tradicionais para imagens aéreas e de paisagem, e 15 drones FPV dedicados ao acompanhamento dos atletas em ação.

Os drones FPV usados nos Jogos pesam apenas 243 gramas — abaixo do limiar de 250g que em muitas regulamentações ao redor do mundo define uma categoria de menor restrição. Não deixa de ser curioso que o equipamento mais emocionante dos Jogos seja também o mais leve da frota.

A velocidade máxima chega a 140 km/h. Isso significa que o drone consegue acompanhar um velocista de luge em queda livre pelo canal de gelo sem perder o enquadramento. Os pilotos usam óculos de realidade aumentada para ver em primeira pessoa o que o drone está vendo, e ajustam a trajetória em tempo real. A empresa responsável pela operação é a Dutch Drone Gods, companhia holandesa especializada em drone cinematográfico de alta performance.

Por que isso é diferente de tudo que foi feito antes

Drones já apareceram nas Olimpíadas antes, é verdade. Nos Jogos de Inverno de PyeongChang em 2018, mais de mil drones formaram os aros olímpicos e uma figura de snowboarder no céu durante a cerimônia de abertura — um espetáculo visual que deu a volta ao mundo. Em Pequim 2022, drones foram utilizados para capturar imagens aéreas das sedes e da cidade.

Mas o que Milão-Cortina 2026 está fazendo é diferente em natureza: os drones não são decoração nem câmeras de paisagem. Eles entram nas pistas junto com os atletas, em operações que exigem coordenação milimétrica com as equipes de segurança e os organizadores de cada modalidade.

Em esportes como luge, skeleton e bobsled, o drone voa por segmentos da pista — não a trajetória inteira, que seria tecnicamente impossível numa estrutura fechada, mas os trechos abertos e as curvas de maior velocidade. Em esqui alpino, acompanha a descida pelo percurso, capturando ângulos que câmeras fixas jamais conseguiriam. Em velocidade na patinação, os drones se movem ao redor da pista criando a sensação de que o espectador está no gelo junto com os atletas.

A visão de quem organiza

Pierre Ducrey, diretor de esportes do COI (Comitê Olímpico Internacional), foi direto ao explicar a estratégia por trás da decisão:

"Nos esforçamos para oferecer a melhor experiência de visualização, seja no estádio ou fora dele."

A frase é simples, mas captura bem a lógica. O COI sabe que a concorrência pela atenção do espectador nunca foi tão acirrada. Redes sociais, plataformas de streaming, jogos, podcasts — tudo compete pelo mesmo tempo limitado das pessoas. Entregar imagens que simplesmente não são possíveis em nenhum outro lugar é uma forma de garantir relevância.

Isto nos dá uma noção de como o esporte e a tecnologia estão se fundindo cada vez mais. Não se trata apenas de filmar melhor — trata-se de criar experiências que mudam a relação do espectador com o que está assistindo.

O que isso significa para o futuro

O uso de drones FPV nos Jogos de 2026 vai certamente abrir caminho para aplicações ainda mais amplas. Modalidades como mountain bike, surf (já presente desde Tóquio 2020), escalada e skate são candidatos naturais para esse tipo de cobertura nos Jogos de Los Angeles 2028.

E fora das Olimpíadas? Cada vez mais, transmissoras de futebol, automobilismo e esportes radicais vão olhar para o que foi feito em Milão-Cortina como referência. O Brasil, que tem uma das maiores comunidades de drones FPV da América Latina, tem muito a contribuir nessa evolução — e muito a aprender com o que está sendo testado nos Alpes italianos agora.

Vale a pena ficar de olho nas imagens que estão saindo de Milão-Cortina. Elas são um anúncio do que está por vir — e uma prova de que o FPV, tantas vezes associado apenas às corridas de fim de semana, é uma tecnologia com alcance muito maior do que muita gente imagina.


Fontes: NBC Olympics | CNN Brasil | CineD

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