DJI: a história da empresa que dominou o mercado de drones
De um dormitório universitário em Hong Kong para 70% do mercado global: como Frank Wang e a DJI se tornaram sinônimo de drone no mundo inteiro.

Quando você pensa em drone, pensa em DJI. A associação é tão automática que parece natural — mas nada nela é acidente. A história da DJI é a história de uma empresa que não apenas criou um mercado, mas o definiu de uma forma tão completa que seus concorrentes passaram anos tentando explicar por que seus produtos não eram iguais ao padrão chinês. A história da DJI é também a história de um estudante de engenharia obcecado com helicópteros de controle remoto que, sem capital, sem rede de contatos e sem experiência empresarial, transformou um quarto de dormitório em Shenzhen numa das maiores empresas de tecnologia do mundo.
Frank Wang e o sonho que começou num quarto de faculdade
Wang Tao — conhecido no Ocidente como Frank Wang — nasceu em Hangzhou, na província de Zhejiang, China. Desde criança era fascinado por helicópteros de controle remoto, o tipo de obsessão que a maioria dos pais trata como fase passageira. No caso de Wang, a fase nunca passou.
Em 2003, Wang se matriculou na HKUST — a Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong — para estudar engenharia eletrônica. O ambiente acadêmico deu a ele as ferramentas para transformar sua obsessão em projeto técnico. Ainda como estudante, desenvolveu controladores de voo para helicópteros RC e ganhou prêmios em competições universitárias de design de produto. O interesse não era apenas voar: era resolver o problema de estabilidade que tornava os helicópteros RC tão difíceis de pilotar.
Em 2006, Wang fundou a DJI — Da-Jiang Innovations, que em mandarim significa algo próximo a "grandes campos" — num quarto de dormitório na HKUST. Os primeiros funcionários eram amigos da faculdade. O capital inicial era mínimo. O produto: sistemas de controle de voo para helicópteros RC.
A escolha de Shenzhen como sede definitiva não foi por acaso. A cidade é a capital global do hardware — um ecossistema onde fabricantes de componentes eletrônicos, empresas de manufatura, fornecedores de matérias-primas e engenheiros especialistas estão a um curto trajeto de metrô de distância. Para uma empresa de hardware em estágio inicial, esse ambiente é um multiplicador de velocidade sem equivalente no mundo.
Os primeiros anos: controladores de voo para hobbyistas
Nos primeiros anos, a DJI operava num nicho restrito: fornecia controladores de voo para hobbyistas avançados e para universidades que pesquisavam veículos aéreos não tripulados. Era um mercado pequeno, técnico, e dominado por entusiastas que construíam seus próprios equipamentos.
O produto central da DJI nesse período era o WooKong-M, um sistema de estabilização para helicópteros hexacópteros e octorotor usados principalmente por fotógrafos profissionais que precisavam de plataformas aéreas estáveis para câmeras pesadas. Era bom — muito bom, tecnicamente —, mas exigia conhecimento especializado para instalar, calibrar e operar. O mercado era restrito por design.
Wang entendia que a barreira de entrada era o problema central. Para a maioria das pessoas, a ideia de ter um drone com câmera era atraente. A realidade de montar e calibrar um hexacóptero personalizado era suficiente para eliminar 99% dos interessados antes mesmo de chegar ao primeiro voo.
A resposta para esse problema chegou em 2013.
O Phantom muda tudo
O lançamento do DJI Phantom em 2013 foi um divisor de águas não apenas para a DJI, mas para o mercado de drones como um todo. O Phantom era o primeiro drone verdadeiramente "plug and fly" para consumidores — tirava da caixa, carregava a bateria, ligava e voava. Sem montagem, sem calibração complexa, sem conhecimento técnico prévio.
A câmera integrada — ou, nas versões iniciais, o suporte para uma GoPro — completava o pacote. Pela primeira vez, qualquer pessoa podia subir uma câmera a 100 metros de altura e gravar vídeos que antes exigiam helicópteros alugados a dezenas de milhares de reais por hora.
O impacto foi imediato. Fotógrafos, cineastas, jornalistas, imobiliárias, construtoras — todos enxergaram uma aplicação específica para seus trabalhos. O Phantom não era apenas um brinquedo. Era uma ferramenta profissional com preço de consumidor.
Para entender a escala da mudança, vale comparar com o contexto competitivo de 2013. A Parrot, empresa francesa que era a principal referência em drones de consumo antes do Phantom, vendia o AR.Drone por um preço similar, mas com capacidades radicalmente inferiores: não tinha GPS confiável, não carregava câmeras profissionais, e era notoriamente instável em condições de vento. O Phantom não apenas foi melhor — foi melhor em todas as dimensões relevantes ao mesmo tempo.
O sucesso do Phantom financiou a expansão da DJI. A empresa cresceu rapidamente, contratando engenheiros, expandindo a linha de produtos e reinvestindo pesadamente em P&D. A trajetória de crescimento seria exponencial nos anos seguintes.
O Mavic e a era do drone de bolso
Se o Phantom democratizou o acesso à fotografia aérea, o Mavic Pro, lançado em 2016, democratizou a portabilidade. O Mavic foi o primeiro drone dobrável e genuinamente compacto da DJI — seu tamanho comparável a uma garrafa d'água, com braços e hélices que se dobram para reduzir o volume de transporte.
No papel, parecia uma concessão. Na prática, foi uma revolução. O Mavic carregava uma câmera 4K com gimbal de 3 eixos integrado — o mesmo nível de estabilização e qualidade do Phantom 4, numa plataforma que cabia numa mochila pequena. O sistema de transmissão de vídeo OcuSync garantia alcance de vários quilômetros com sinal estável.
O Mavic Pro vendeu milhões de unidades e estabeleceu um template de design que a indústria inteira passou a seguir. Concorrentes tentaram replicar a combinação de compacidade, câmera de qualidade e estabilidade, mas nenhum chegou próximo da execução da DJI naquele momento.
A linha Mavic evoluiu continuamente: Mavic Air, Mavic 2 Pro (com sensor Hasselblad), Mavic 3, Air 3 — cada geração adicionando capacidade computacional, qualidade de câmera e recursos de segurança. Em paralelo, a DJI lançou a série Mini, com peso abaixo de 249 gramas para se enquadrar em categorias regulatórias mais permissivas em vários países. O Mini SE, o Mini 3 e o Mini 4 Pro abriram o mercado para usuários que precisavam de um drone simples, leve e com menos burocracia.
Dominação de mercado: de empresa chinesa a padrão global
Os números de mercado da DJI em 2024 são difíceis de processar. A empresa controla mais de 70% do mercado global de drones comerciais e mais de 90% do mercado de consumo, segundo dados compilados pelo setor. Esse nível de concentração de mercado não é comum nem mesmo em indústrias maduras — na tecnologia de consumo, é raríssimo.
O valuation da DJI é estimado em cerca de US$ 15 bilhões. Frank Wang, hoje com pouco mais de 40 anos, é bilionário. A empresa emprega dezenas de milhares de pessoas globalmente e opera centros de pesquisa na China, Europa e Estados Unidos.
Como uma empresa fundada num dormitório universitário com produto para nicho de hobbyistas chegou aqui? Parte da resposta está na execução técnica consistente — a DJI raramente lança produtos com defeitos graves, e quando lança, responde rapidamente. Parte está na velocidade de iteração — a empresa lança novas gerações de produtos num ritmo que concorrentes simplesmente não conseguem acompanhar. E parte está no ecossistema que a DJI construiu: integração com softwares de mapeamento, APIs abertas para desenvolvedores, plataformas de gerenciamento de frota — tudo isso cria custos de troca que tornam a mudança para concorrentes não apenas tecnicamente inferior, mas operacionalmente disruptiva.
A DJI também expandiu bem além dos drones. A linha Osmo de câmeras de ação e estabilizadores compete diretamente com a GoPro. A linha Ronin de gimbals é padrão em produções cinematográficas profissionais. O DJI Agras é a principal referência em drones de pulverização agrícola — inclusive no agronegócio brasileiro. A linha Inspire e as câmeras Zenmuse são usadas em produções da Netflix e de grandes emissoras.
As controvérsias: banimento nos EUA e questões de segurança
O sucesso global da DJI veio acompanhado de um problema estrutural que a empresa não conseguiu resolver inteiramente: a desconfiança crescente dos Estados Unidos em relação a empresas de tecnologia chinesas com acesso a dados de cidadãos e infraestrutura americanos.
Em 2020, o Departamento de Defesa dos EUA incluiu a DJI numa lista de empresas com suposto vínculo com as Forças Armadas chinesas. Em 2021, o Departamento de Comércio adicionou a DJI à "Entity List", que impõe restrições a exportações de tecnologia americana para a empresa. O NDAA (National Defense Authorization Act) proibiu formalmente o uso de drones DJI por agências governamentais americanas.
As acusações centrais: que os drones DJI poderiam transmitir dados coletados — imagens, coordenadas GPS, informações de voo — para servidores na China, potencialmente acessíveis ao governo chinês. A DJI negou categoricamente as acusações, abriu seu código para auditorias independentes e ofereceu um "Local Data Mode" que desabilita completamente a transmissão de dados para servidores externos. A FCC seguiu adiante com discussões sobre um banimento ainda mais amplo.
O detalhe importante: nenhuma auditoria independente até o momento encontrou evidências de transmissão clandestina de dados. O banimento da DJI nos EUA tem tanto de geopolítica quanto de segurança técnica comprovada. Isso não muda a realidade prática — várias agências governamentais americanas substituíram ou estão substituindo drones DJI por alternativas fabricadas nos EUA, como os da Skydio —, mas contextualiza a natureza do conflito.
DJI no Brasil: uso e impacto
No Brasil, a DJI domina o mercado de forma ainda mais pronunciada do que a média global. É a marca de referência para fotógrafos e cineastas, para profissionais de inspeção de infraestrutura, para empresas de topografia e para o agronegócio.
O DJI Agras T50 — com 50 litros de capacidade de tanque e sistema de pulverização de alta precisão — é um dos drones agrícolas mais usados no país. Em parceria com plataformas de gestão agrícola e com a Embrapa, a DJI tem desenvolvido casos de uso específicos para as condições do campo brasileiro, incluindo aplicações em soja, milho, cana-de-açúcar e café.
Na área cinematográfica, o Inspire 3 e as câmeras Zenmuse são padrão em produções nacionais de alta qualidade. O Mini 4 Pro é o drone de consumo mais vendido no país por larga margem, beneficiado pela regulamentação da ANAC que facilita o uso de aeronaves abaixo de 249 gramas em áreas urbanas.
O guia para comprar um drone do ODrones inclui modelos DJI em praticamente todas as categorias de uso e orçamento — um reflexo direto do domínio da marca no mercado brasileiro.
O que vem por aí
A DJI continua investindo pesadamente em áreas que vão além do drone de consumo. O desenvolvimento de sistemas de navegação autônoma, integração com redes 5G para controle além da linha de visada, e plataformas de gestão de enxames são frentes de pesquisa ativas. A empresa também está investindo em sistemas de aeronaves elétricas para mobilidade urbana — o próximo salto tecnológico no setor.
A questão geopolítica, porém, representa um risco real de longo prazo. Se o banimento americano se aprofundar e se outros países ocidentais seguirem o exemplo — a União Europeia tem observado o debate americano com atenção —, a DJI pode perder acesso a mercados significativos. A empresa está construindo reservas técnicas e buscando ampliar sua presença em mercados não ocidentais como hedge para esse cenário.
Mas quem já construiu 70% de um mercado global a partir de um quarto de dormitório provavelmente tem respostas para perguntas que ainda não foram formuladas. A história dos drones mostra que o setor sempre encontrou um caminho — e a DJI, até aqui, sempre esteve na frente.
Perguntas frequentes
Fontes: Wikipedia — DJI | Heliguy — DJI: Two Decades of Innovation | Bloomberg — The Drone King
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