Marinha e Taurus vão desenvolver drones armados no Brasil
Marinha do Brasil e Taurus fecharam protocolo, com apoio do BNDES, para estudar drones armados. Entenda o que isso significa para a indústria nacional.

O Brasil deu um passo concreto para reduzir sua dependência de drones militares estrangeiros. A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais, assinou em 10 de fevereiro um Protocolo de Intenções com a Taurus Armas S.A. para estudar o desenvolvimento de sistemas de armas leves, armamentos coletivos e drones armados projetados para os ambientes operacionais da Força Naval. O acordo, firmado na Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, conta com apoio institucional do BNDES.
É a primeira vez que uma fabricante privada brasileira de armamentos se une formalmente à Marinha e ao banco de fomento do governo federal para explorar o desenvolvimento conjunto de aeronaves não tripuladas de uso militar. O objetivo declarado é fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) com tecnologia fabricada no Brasil, alinhada às diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa (END).
O que foi assinado
O Protocolo de Intenções prevê, ao longo de dois anos, a realização de reuniões técnicas periódicas entre equipes da Marinha e da Taurus. As reuniões vão avaliar a viabilidade de novas soluções para os diferentes contextos em que os Fuzileiros Navais operam — de missões anfíbias a operações de patrulha em áreas remotas.
O escopo inicial abrange três frentes: sistemas de armas leves, armamentos coletivos e drones armados. Nesta fase, não há transferência de recursos financeiros entre os signatários. O protocolo define apenas os termos da cooperação técnica. Caso os estudos apontem soluções viáveis, novos instrumentos jurídicos poderão ser propostos para a eventual aquisição das tecnologias.
O Comandante-Geral dos Fuzileiros Navais, Almirante Carlos Chagas Vianna Braga, destacou que "a confiabilidade do armamento é essencial para a segurança do pessoal militar." Para a Taurus, o acordo representa uma mudança de posicionamento: o CEO Salesio Nuhs sinalizou que a empresa está se movendo "rumo ao segmento de armamento militar", ampliando sua atuação para além das armas pessoais.
O papel do BNDES
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social entra como apoiador institucional. Neste momento, não há financiamento direto — mas o banco "pode considerar, segundo critérios de governança, o apoio financeiro a projetos resultantes dos estudos", conforme declaração oficial.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou o alinhamento da parceria com o programa Nova Indústria Brasil (NIB), política lançada em 2024 para estimular a industrialização e a inovação no país. A presença do banco, ainda que simbólica nesta fase, é estratégica: sinaliza que há um caminho já pavimentado para o financiamento público caso os protótipos se mostrem viáveis.
Um setor ainda fragmentado
A parceria nasce em um contexto que o próprio setor reconhece como problemático. O analista militar Pedro Paulo Rezende caracterizou a indústria brasileira de drones como "extremamente pulverizada" — centenas de pequenas empresas competem internamente e externamente sem integração industrial e sem coordenação clara com as Forças Armadas. Segundo Rezende, o setor "ainda não entrou de forma organizada" nos contratos de defesa.
Um exemplo de capacidade técnica nacional que já existe: o projeto Albatroz Vortex, drone de uso militar desenvolvido com turbinas inteiramente fabricadas em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O projeto mostra que o Brasil tem condição de produzir componentes críticos domesticamente — mas ainda de forma isolada, sem escala.
O acordo entre Marinha e Taurus busca exatamente criar essa ponte entre capacidade técnica fragmentada e demanda militar organizada. O risco é o de sempre: protocolos de intenção que não se convertem em contratos. A vigência de dois anos e a ausência de compromisso financeiro nesta fase deixam o resultado em aberto.
O que muda para o piloto brasileiro
No curto prazo, o acordo não afeta quem pilota drones recreativos ou comerciais. As regras da ANAC para uso civil de drones seguem inalteradas, e os requisitos de registro e licenciamento continuam os mesmos.
A implicação mais relevante é de médio e longo prazo. Quando o governo sinaliza que trata o drone como tecnologia estratégica nacional — e não apenas como produto de importação —, isso afeta todo o ecossistema. Se o BNDES passar a financiar produção de drones no Brasil, parte desse movimento industrial pode eventualmente alcançar o segmento civil, com componentes mais acessíveis no mercado local e menos dependência de fornecedores estrangeiros.
Para quem usa drones profissionalmente — em inspeções, agronegócio ou mapeamento aéreo — vale acompanhar o andamento dos estudos técnicos. O desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos nacional para drones militares tende, historicamente, a gerar transbordamento tecnológico para o mercado civil.
Perguntas frequentes
Fontes: Agência Marinha de Notícias | Revista Sociedade Militar | Sputnik Brasil
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