Marinha e Taurus vão desenvolver drones armados no Brasil

Marinha do Brasil e Taurus fecharam protocolo, com apoio do BNDES, para estudar drones armados. Entenda o que isso significa para a indústria nacional.

Lucas Buzzo 5 min de leitura
Marinha e Taurus vão desenvolver drones armados no Brasil

O Brasil deu um passo concreto para reduzir sua dependência de drones militares estrangeiros. A Marinha do Brasil, por meio do Corpo de Fuzileiros Navais, assinou em 10 de fevereiro um Protocolo de Intenções com a Taurus Armas S.A. para estudar o desenvolvimento de sistemas de armas leves, armamentos coletivos e drones armados projetados para os ambientes operacionais da Força Naval. O acordo, firmado na Fortaleza de São José, no Centro do Rio de Janeiro, conta com apoio institucional do BNDES.

É a primeira vez que uma fabricante privada brasileira de armamentos se une formalmente à Marinha e ao banco de fomento do governo federal para explorar o desenvolvimento conjunto de aeronaves não tripuladas de uso militar. O objetivo declarado é fortalecer a Base Industrial de Defesa (BID) com tecnologia fabricada no Brasil, alinhada às diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa (END).


O que foi assinado

O Protocolo de Intenções prevê, ao longo de dois anos, a realização de reuniões técnicas periódicas entre equipes da Marinha e da Taurus. As reuniões vão avaliar a viabilidade de novas soluções para os diferentes contextos em que os Fuzileiros Navais operam — de missões anfíbias a operações de patrulha em áreas remotas.

O escopo inicial abrange três frentes: sistemas de armas leves, armamentos coletivos e drones armados. Nesta fase, não há transferência de recursos financeiros entre os signatários. O protocolo define apenas os termos da cooperação técnica. Caso os estudos apontem soluções viáveis, novos instrumentos jurídicos poderão ser propostos para a eventual aquisição das tecnologias.

O Comandante-Geral dos Fuzileiros Navais, Almirante Carlos Chagas Vianna Braga, destacou que "a confiabilidade do armamento é essencial para a segurança do pessoal militar." Para a Taurus, o acordo representa uma mudança de posicionamento: o CEO Salesio Nuhs sinalizou que a empresa está se movendo "rumo ao segmento de armamento militar", ampliando sua atuação para além das armas pessoais.


O papel do BNDES

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social entra como apoiador institucional. Neste momento, não há financiamento direto — mas o banco "pode considerar, segundo critérios de governança, o apoio financeiro a projetos resultantes dos estudos", conforme declaração oficial.

O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou o alinhamento da parceria com o programa Nova Indústria Brasil (NIB), política lançada em 2024 para estimular a industrialização e a inovação no país. A presença do banco, ainda que simbólica nesta fase, é estratégica: sinaliza que há um caminho já pavimentado para o financiamento público caso os protótipos se mostrem viáveis.


Um setor ainda fragmentado

A parceria nasce em um contexto que o próprio setor reconhece como problemático. O analista militar Pedro Paulo Rezende caracterizou a indústria brasileira de drones como "extremamente pulverizada" — centenas de pequenas empresas competem internamente e externamente sem integração industrial e sem coordenação clara com as Forças Armadas. Segundo Rezende, o setor "ainda não entrou de forma organizada" nos contratos de defesa.

Um exemplo de capacidade técnica nacional que já existe: o projeto Albatroz Vortex, drone de uso militar desenvolvido com turbinas inteiramente fabricadas em São José dos Campos, no interior de São Paulo. O projeto mostra que o Brasil tem condição de produzir componentes críticos domesticamente — mas ainda de forma isolada, sem escala.

O acordo entre Marinha e Taurus busca exatamente criar essa ponte entre capacidade técnica fragmentada e demanda militar organizada. O risco é o de sempre: protocolos de intenção que não se convertem em contratos. A vigência de dois anos e a ausência de compromisso financeiro nesta fase deixam o resultado em aberto.


O que muda para o piloto brasileiro

No curto prazo, o acordo não afeta quem pilota drones recreativos ou comerciais. As regras da ANAC para uso civil de drones seguem inalteradas, e os requisitos de registro e licenciamento continuam os mesmos.

A implicação mais relevante é de médio e longo prazo. Quando o governo sinaliza que trata o drone como tecnologia estratégica nacional — e não apenas como produto de importação —, isso afeta todo o ecossistema. Se o BNDES passar a financiar produção de drones no Brasil, parte desse movimento industrial pode eventualmente alcançar o segmento civil, com componentes mais acessíveis no mercado local e menos dependência de fornecedores estrangeiros.

Para quem usa drones profissionalmente — em inspeções, agronegócio ou mapeamento aéreo — vale acompanhar o andamento dos estudos técnicos. O desenvolvimento de uma cadeia de suprimentos nacional para drones militares tende, historicamente, a gerar transbordamento tecnológico para o mercado civil.


Perguntas frequentes


Fontes: Agência Marinha de Notícias | Revista Sociedade Militar | Sputnik Brasil

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