SpaceX quer controlar enxames de drones com a voz — e o Pentágono está pagando para saber se é possível

SpaceX e xAI entram em disputa secreta de US$ 100 milhões do Departamento de Defesa americano para desenvolver tecnologia de controle de enxames de drones autônomos por comandos de voz.

Lucas Buzzo 5 min de leitura
SpaceX quer controlar enxames de drones com a voz — e o Pentágono está pagando para saber se é possível

Em 2015, Elon Musk foi um dos signatários de uma carta aberta que alertava para os "riscos potenciais" do desenvolvimento de armas autônomas. O documento, assinado por mais de mil pesquisadores e figuras da área de tecnologia, pedia reflexão cuidadosa antes de avançar nessa direção. Algumas das mentes mais influentes do setor apontavam para os perigos econômicos e éticos de se automatizar a guerra.

Onze anos depois, a SpaceX e a xAI — empresas de Musk — estão competindo por um contrato secreto de US$ 100 milhões do Departamento de Defesa americano para desenvolver tecnologia de controle de enxames de drones através de comandos de voz.

Não é simples de ignorar a ironia.

O que é o projeto

A informação veio à tona em 16 de fevereiro de 2026, reportada pela Bloomberg e confirmada por outras publicações especializadas em defesa. O projeto, chamado de Autonomous Vehicle Orchestrator Prize Challenge (Desafio de Prêmio para Orquestração de Veículos Autônomos), foi lançado em janeiro de 2026 e tem duração de seis meses.

O objetivo é desenvolver um software capaz de coordenar operações de enxames de VANTs (veículos aéreos não tripulados) no ar e no mar, com um diferencial bastante específico: o sistema deve ser controlável por comandos de voz em linguagem natural. O operador fala, o algoritmo interpreta, e uma frota de drones executa a instrução de forma coordenada e autônoma.

O desafio é dividido em cinco etapas eliminatórias, começando com o desenvolvimento do software e avançando até testes de campo ao vivo. Os participantes são eliminados em cada fase até que uma solução vencedora seja declarada — e o prêmio distribuído.

Quem está por trás

O projeto é gerenciado por duas entidades do Pentágono: a Defense Innovation Unit (DIU), criada em 2015 para aproximar o setor de tecnologia civil do complexo de defesa americano, e o recém-criado Defense Autonomous Warfare Group, que opera sob o SOCOM (Comando de Operações Especiais dos EUA).

A criação de uma unidade específica para guerra autônoma dentro do SOCOM é, por si só, um sinal claro de onde o pensamento estratégico americano está indo. Não se trata mais de uma exploração de possibilidades — é uma estrutura institucional dedicada a transformar drones autônomos em ferramenta operacional real.

A SpaceX e a xAI não são as únicas competidoras. A natureza secreta do processo não permite uma lista completa, mas o formato de competição aberta sugere que várias outras empresas de tecnologia e defesa também estão na disputa. Separadamente, a xAI já fechou contratos de inteligência artificial com o governo americano de até US$ 200 milhões, ao lado de outras empresas como a OpenAI.

O Pentágono e os drones: uma aposta de bilhões

Esse projeto não existe em isolamento. O Departamento de Defesa americano planeja gastar US$ 9,4 bilhões em drones de combate aéreo apenas no ano fiscal de 2026 — parte de um investimento mais amplo de US$ 13,4 bilhões em sistemas autônomos. Essa cifra dá a dimensão do comprometimento americano com a tecnologia.

O programa Collaborative Combat Aircraft (CCA) da Força Aérea, que desenvolve drones para voar em formação ao lado de caças tripulados como o F-35, já tem fabricantes como a Anduril e a General Atomics integrados no processo. A Anduril anunciou que realizará o primeiro disparo real de armamento a bordo de seu modelo YFQ-44A ainda em 2026.

O contexto é claro: os EUA estão construindo, agora, a infraestrutura de uma nova forma de fazer guerra — e os drones estão no centro disso.

A questão ética que não vai embora

É impossível discutir esse projeto sem passar pela dimensão ética. A ideia de sistemas que coordenam frotas de drones de forma autônoma, mediante um simples comando de voz, evoca debates que a comunidade científica e filosófica leva muito a sério.

O que define o alvo? Como se garante que um algoritmo, interpretando linguagem natural, não vai executar uma instrução de forma diferente da intenção do operador? Quem é responsável quando um enxame autônomo comete um erro? A resposta "foi o algoritmo" não serve num tribunal de guerra.

Musk, que co-assinou a carta de 2015, não se manifestou publicamente sobre a aparente contradição entre sua posição de então e a participação de suas empresas nesse projeto agora.

O que pouca gente sabe — ou prefere ignorar — é que essa corrida já está em andamento em vários países simultaneamente. A China tem programas equivalentes em desenvolvimento. A Rússia usa drones de forma massiva na guerra na Ucrânia, com graus crescentes de autonomia operacional. O Reino Unido, a Austrália e a Coreia do Sul têm seus próprios programas. A pergunta não é mais se vamos ter enxames de drones autônomos nos conflitos futuros. A pergunta é quem vai ter primeiro — e o que vai fazer com isso.

O que observar nos próximos meses

O Autonomous Vehicle Orchestrator Prize Challenge tem previsão de conclusão para o segundo semestre de 2026. Se a SpaceX ou a xAI vencerem, será mais um passo na consolidação do grupo de Musk como fornecedor estratégico das forças armadas americanas — algo que já acontece com o Starlink e com os contratos de lançamento de satélites militares.

E independentemente de quem vence, o projeto vai entregar ao Pentágono algo valioso: dados sobre o estado da arte em coordenação de enxames por inteligência artificial, e um mapa mais claro do que é possível construir com a tecnologia disponível hoje.

Esse mapa, inevitavelmente, vai definir o campo de batalha dos próximos anos. E a história vai lembrar que ele foi desenhado num concurso de seis meses, com um prêmio de US$ 100 milhões, lançado em silêncio num mês de janeiro.


Fontes: Bloomberg | The Defense Post | Interesting Engineering

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