Wing e Walmart expandem entrega por drone para 150 lojas nos EUA — 40 milhões de americanos serão atendidos

Em janeiro de 2026, Wing e Walmart anunciaram a expansão de entrega por drone para 150 novas lojas nos EUA, com cobertura de 40 milhões de pessoas. Entenda o que mudou e por que isso importa.

Lucas Buzzo 7 min de leitura
Wing e Walmart expandem entrega por drone para 150 lojas nos EUA — 40 milhões de americanos serão atendidos

No dia 15 de janeiro de 2026, a Wing — subsidiária de drones do Alphabet, a empresa controladora do Google — abriu sua primeira operação em Houston. Não foi um piloto experimental. Foi o disparo de largada de uma expansão que, segundo anúncio da semana anterior, vai levar entrega por drone a mais 150 lojas do Walmart espalhadas pelos Estados Unidos ao longo de 2026. Ao final de 2027, a meta é operar em mais de 270 pontos de entrega, cobrindo um corredor que vai de Los Angeles a Miami.

O número que resume melhor o tamanho do movimento: 40 milhões de americanos terão acesso a entrega por drone num raio de poucos quilômetros de casa. Não é ficção científica. É infraestrutura logística sendo construída agora, em tempo real.

De uma loja no Texas a uma rede nacional

A parceria entre Wing e Walmart não é nova. O projeto começou em setembro de 2023, em Frisco, no Texas — uma cidade da região metropolitana de Dallas. À época, era uma operação cautelosa, limitada a uma loja e a um raio restrito de atendimento. Mas os resultados foram suficientes para convencer as duas empresas a apostar mais.

Até o final de 2025, a Wing já operava em 20 lojas na área de Dallas-Fort Worth e havia aberto seis novos hubs em Atlanta. Segundo dados divulgados pela própria empresa, o total acumulado de entregas realizadas em parceria com o Walmart ultrapassa 750 mil — um número expressivo para uma tecnologia que muita gente ainda trata como promessa distante.

A expansão anunciada em janeiro de 2026 é um salto de escala diferente de tudo que foi feito antes. As cidades na lista incluem Los Angeles, Houston, Miami, St. Louis, Cincinnati, Charlotte, Tampa e Orlando. O padrão escolhido são grandes metrópoles com densidade habitacional e demanda por conveniência — exatamente o perfil onde a entrega por drone tem mais sentido econômico.

O que o drone faz — e o que ele não faz

Vale ser direto sobre as capacidades técnicas, porque existem expectativas que ainda não batem com a realidade atual.

Os drones da Wing operam a uma altitude de cruzeiro entre 45 e 60 metros, a velocidades de até 96 km/h. O raio de atendimento é de até 10 quilômetros a partir do hub instalado no estacionamento do Walmart. Uma entrega típica leva menos de 20 minutos — do momento em que o pedido é confirmado até o momento em que o pacote desce no quintal do cliente por um cabo retrátil. O drone não pousa: ele paira a alguns metros do chão, baixa o item, e segue de volta.

A limitação mais clara está no peso: o sistema comporta pacotes de até 1,1 kg. Isso define bem o mix de produtos viável — ovos, medicamentos sem receita, bebidas, itens de mercearia leve, cosméticos, pequenos eletrônicos. "Clientes poderão ter produtos como itens de mercearia, presentes de última hora, itens domésticos e medicamentos sem receita entregues em menos de 30 minutos", explicou um porta-voz da parceria.

O que não entra: itens grandes, pesados, refrigerados ou que precisem de embalagem especial. A entrega por drone, neste estágio, não compete com o frete convencional em toda a sua amplitude — ela compete com a ida rápida ao supermercado mais próximo.

A regulamentação que virou a chave

O maior obstáculo à entrega por drone nunca foi tecnológico. Foi regulatório. E a partir de agosto de 2025, esse obstáculo foi formalmente removido nos Estados Unidos.

A FAA (Federal Aviation Administration) publicou em agosto de 2025 as novas regras para operações BVLOS — sigla em inglês para Beyond Visual Line of Sight, ou seja, voo além do alcance visual do piloto. Por anos, a operação comercial de drones nos EUA exigia que o piloto mantivesse o equipamento em campo de visão o tempo todo. Isso tornava qualquer operação de entrega em larga escala inviável do ponto de vista operacional.

As novas regras criaram um framework baseado em performance: em vez de exigir que o operador veja o drone, a FAA agora exige que o operador demonstre que o sistema tem capacidade de evitar outros aeronaves, detectar obstáculos e operar com segurança de forma autônoma. É uma mudança de paradigma que, segundo o relatório da GlobeNewswire, "transforma radicalmente a economia unitária das operações de drone, tornando viável a operação em escala empresarial".

Sem essa mudança regulatória, a expansão anunciada pela Wing e pelo Walmart seria impossível. Com ela, o plano de 150 lojas em 2026 e 270 em 2027 se torna não apenas possível, mas competitivo.

Um mercado de US$ 35 bilhões em 2026

O tamanho do movimento em curso fica mais claro quando se olha para os números do mercado como um todo.

Segundo relatório publicado em fevereiro de 2026, a receita global de serviços de drone deve superar US$ 35,72 bilhões só neste ano — e deve continuar crescendo de forma consistente ao longo da próxima década. O segmento de entrega e logística é um dos principais motores desse crescimento, junto com inspeção de infraestrutura e mapeamento agrícola.

A normalização do BVLOS é tratada no relatório como o principal catalisador da expansão: ela reduz os custos de conformidade regulatória, acelera o cronograma de implantação e viabiliza operações que antes exigiam equipes presenciais numerosas. Progressos similares estão ocorrendo na Austrália e na Europa, onde o sistema U-space de gestão de tráfego de drones avança na certificação.

Amazon e Zipline também estão no jogo

Wing não está sozinha nessa corrida — e a concorrência diz muito sobre o quanto o setor amadureceu.

A Amazon Prime Air relançou suas operações comerciais em 2024 após uma pausa técnica para atualização de software. A empresa fez entregas no Texas e no Arizona, mas o ritmo de expansão foi mais lento que o da Wing. Em outubro de 2025, a Amazon fez uma nova pausa operacional — o que levantou questionamentos sobre a estabilidade do programa. A empresa não divulgou detalhes técnicos.

Já a Zipline tomou um caminho diferente. Com origem no setor de saúde — a empresa começou entregando sangue e medicamentos em áreas rurais da África — ela se expandiu para o mercado americano com um modelo de entrega urbana que já opera em várias cidades. A Zipline tem parceria com o sistema de saúde Kaiser Permanente e com empresas de alimentação, focando em entregas de alta precisão em janelas de tempo curtas.

O ambiente competitivo atual é o mais denso que o setor já viu. E isso é uma boa notícia para os consumidores: empresas disputando o mesmo mercado tendem a inovar mais rápido e a baixar os custos.

E no Brasil?

Por aqui, a entrega por drone ainda é um projeto de futuro — mas não um futuro tão distante.

A ANAC já possui regulamentação para operações de drones além da linha de visada, mas as regras para operações comerciais regulares de entrega ainda estão em fase de desenvolvimento. Há empresas brasileiras testando entregas em áreas rurais e hospitalares — especialmente no segmento de saúde, onde o modelo da Zipline serve de inspiração —, mas o tipo de operação urbana em larga escala que Wing e Walmart estão construindo nos EUA ainda não tem precedente regulatório consolidado no país.

O que o Brasil pode aprender com o movimento americano é que o caminho não é esperar a tecnologia estar pronta. Ela já está. O que define o ritmo de adoção é a disposição das agências regulatórias de criar frameworks que equilibrem segurança e inovação. A FAA levou anos para chegar onde chegou — e o resultado está sendo um dos maiores saltos logísticos da década.


Fontes: DroneLife — Walmart Wing Expansion | Retail Tech Innovation Hub | GlobeNewswire — Drone Service Market 2026

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