O agronegócio brasileiro descobriu os drones — e não tem mais volta
De 2.500 drones agrícolas registrados para uma projeção de 90.000 até 2026: como o maior setor do PIB brasileiro está adotando os VANTs para pulverizar, monitorar e plantar com uma precisão impossível para o ser humano.

Raramente fazemos uma ponte entre a imagem clássica do drone — aquele quadricóptero que alguém sobe para filmar uma cachoeira ou uma praia — e o interior do Mato Grosso, onde máquinas que mal se encaixam nessa descrição estão redefinindo a forma como o Brasil produz alimentos.
O agronegócio brasileiro descobriu os drones. E a velocidade com que essa adoção está acontecendo é, ela própria, impressionante.
Em 2021, havia pouco mais de 2.500 drones agrícolas registrados na ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). A projeção do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) é que esse número chegue a 90.000 unidades até 2026 — um crescimento de mais de 35 vezes em menos de cinco anos. Segundo a DJI Agriculture, o mercado de drones agrícolas no Brasil cresceu 11 vezes desde 2021.
Não é hype. É transformação de setor.
O que um drone faz numa lavoura
Para quem está acostumado a pensar em drones como ferramentas de fotografia aérea, a aplicação agrícola pode parecer estranha à primeira vista. Mas faz todo sentido quando se entende o problema que eles resolvem.
O agronegócio brasileiro opera em escala gigantesca. Uma fazenda de soja no Mato Grosso pode ter dezenas de milhares de hectares. Monitorar pragas, doenças, deficiências nutricionais e estresse hídrico nessa área, com a frequência necessária para tomar decisões a tempo, é uma tarefa que o ser humano simplesmente não consegue fazer com a precisão adequada — e o avião agrícola tradicional, por mais eficiente que seja, não tem a resolução espacial nem a flexibilidade operacional para isso.
Os drones resolvem esse problema de várias formas simultâneas:
Monitoramento: Equipados com câmeras multiespectrais e sensores térmicos, os drones captam imagens em frequências de luz que o olho humano não enxerga. Isso permite identificar plantas sob estresse antes que os sintomas apareçam visivelmente, mapear a variação de produtividade dentro de um mesmo talhão e localizar focos de praga com uma precisão impossível para o monitoramento terrestre.
Pulverização: Esta é a aplicação que mais cresce. Os drones agrícolas de pulverização — como o DJI Agras T50 e o XAG P150 — carregam tanques de até 50 litros e conseguem cobrir áreas extensas com precisão centimétrica, depositando o produto exatamente onde é necessário. Segundo dados da Embrapa, essa precisão pode reduzir o uso de defensivos agrícolas em até 30% em comparação com métodos convencionais.
Plantio: Um drone consegue semear até 50 hectares por dia — contra, no máximo, 1 hectare por dia para um operador humano. Essa vantagem de 50 vezes na produtividade é o tipo de número que muda a equação econômica de qualquer operação.
O que mudou na regulamentação
Não é de se surpreender que o crescimento explosivo do setor tenha coincidido com uma mudança regulatória importante. Em abril de 2023, a ANAC eliminou o limite de peso de 25 quilogramas que antes restringia os drones usados em aplicações agrícolas. Essa mudança foi especialmente relevante porque os drones mais eficientes para pulverização — os que carregam mais produto e cobrem mais área por voo — tendem a ser mais pesados.
Com a remoção do limite, fabricantes e operadores passaram a ter mais liberdade para desenvolver e usar equipamentos maiores e mais capazes. O mercado respondeu rapidamente.
A expectativa é que o novo RBAC 100 — a revisão completa das regras da ANAC para drones, que está em fase final de desenvolvimento — consolide e expanda essas flexibilidades, enquanto cria um framework de segurança mais robusto para operações comerciais de maior porte.
Os números que justificam o investimento
Para um produtor rural, a decisão de adotar drones é, no fundo, uma decisão econômica. E os números estão se tornando difíceis de ignorar.
Fazendas de milho e soja no Mato Grosso que adotaram drones para monitoramento e pulverização relataram aumento de produtividade de até 18% e redução no uso de insumos de até 25%, segundo dados compilados por pesquisadores do setor. Numa commodity em que a margem por hectare é apertada e o volume é o que define o lucro, esses percentuais representam diferenças enormes no resultado final.
O mercado de drones agrícolas no Brasil tem potencial de movimentar R$ 96 bilhões até 2028, segundo projeções da Xmobots, empresa brasileira especializada em drones para o agronegócio.
O Brasil como potência global no segmento
Há uma dimensão que merece atenção especial: o Brasil não é apenas um grande mercado consumidor de drones agrícolas — está se tornando também um polo de desenvolvimento de tecnologia para o setor.
Empresas como a própria Xmobots, sediada em São Carlos (SP), desenvolvem e fabricam drones para uso profissional no agronegócio brasileiro. Isso é relevante porque significa que parte do valor agregado fica no país — e que as soluções são desenvolvidas com as especificidades do campo brasileiro em mente.
A extensão territorial do Brasil, a diversidade de culturas e biomas, e a escala das operações criam demandas que não existem em outros mercados com a mesma intensidade. Isso coloca o Brasil numa posição interessante: ao mesmo tempo que é um dos maiores mercados do mundo para drones agrícolas, também tem as condições para se tornar um dos maiores exportadores de soluções para esse setor.
O que vem pela frente
A evolução tecnológica não para. Os próximos passos apontam para drones com ainda mais autonomia, maior capacidade de carga, e integração mais profunda com plataformas de gestão agrícola — combinando imagens de satélite, dados de sensores no solo e análises de IA para gerar recomendações automatizadas em tempo real.
A dúvida não é mais se o drone vai fazer parte do agronegócio brasileiro. Isso já está decidido. A dúvida é a velocidade com que a tecnologia vai avançar — e se a regulamentação, a infraestrutura e a capacitação dos operadores vão conseguir acompanhar.
Cada vez mais, o céu sobre as lavouras brasileiras vai estar ocupado. E dessa vez, não será com avião-mosquito.
Fontes: CNA Brasil | Inovativos | Xmobots
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