Exército adota DJI Matrice 300 RTK como drone padrão

O Exército Brasileiro oficializou o DJI Matrice 300 RTK como drone padrão da Força Terrestre, via portaria, enquanto EUA e aliados baniam a mesma tecnologia.

Lucas Buzzo 6 min de leitura
Exército adota DJI Matrice 300 RTK como drone padrão

O Exército Brasileiro formalizou o DJI Matrice 300 RTK como drone padrão da Força Terrestre. A Portaria nº 2.660/2026, emitida pelo Comando do Exército, oficializa uma plataforma fabricada pela chinesa DJI para uso em operações de reconhecimento, vigilância e aquisição de alvos — as chamadas missões IRVA (Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos).

A decisão foi revelada em análise publicada nesta semana pelo Coronel Leonardo RC Araujo, da LRCA Defense Consulting, especializada em defesa. Ela ocorre precisamente quando os Estados Unidos, a Austrália, a Índia e o Japão aceleram o movimento contrário: banir os drones da DJI de arsenais e redes governamentais por suspeita de espionagem a serviço de Pequim.


O que é o DJI Matrice 300 RTK

O Matrice 300 RTK é o modelo mais avançado da linha enterprise da DJI, projetado para operações profissionais de longa duração. Fabricado em Shenzhen, China, o drone possui até 55 minutos de autonomia de voo, alcance de transmissão de 15 km e posicionamento RTK (Real-Time Kinematic, ou Cinemática em Tempo Real) com precisão centimétrica.

Principais especificações técnicas:

EspecificaçãoValor
Autonomia de vooAté 55 minutos
Alcance de transmissão15 km
Precisão RTKCentimétrica
Capacidade de cargaAté 2,7 kg de payload
Temperatura de operação-20 °C a +50 °C
Detecção de obstáculosSeis direções

Na configuração típica das Forças Armadas, o drone opera com o payload Zenmuse H20T: câmera de zoom 20x, sensor térmico, telêmetro a laser e câmera wide, tudo em uma única cabeça giratória estabilizada. O conjunto permite identificar alvos a distâncias seguras, com baixo risco ao operador.

O Exército já utilizava o Matrice 300 RTK desde pelo menos 2022, quando adquiriu quatro unidades para experimentação doutrinária, ao lado de 30 unidades do DJI Mavic 2 Enterprise. A portaria de 2026 não representa uma estreia, mas a institucionalização formal da plataforma como equipamento padrão da Força Terrestre.


O paradoxo geopolítico

A formalização ocorre em um momento de crescente pressão internacional contra a DJI. Em dezembro de 2025, a Comissão Federal de Comunicações dos EUA (FCC) adicionou drones estrangeiros à sua "Lista Coberta" — equipamentos considerados risco à segurança nacional —, bloqueando novas autorizações para produtos DJI no mercado americano.

Em fevereiro de 2026, a DJI entrou com ação judicial no Nono Circuito dos EUA para tentar reverter a decisão, alegando perdas projetadas de US$ 1,56 bilhão em vendas ao longo do ano. A empresa nega as acusações e destaca recursos como o "Modo de dados local", que impede o envio de informações a servidores externos.

A base legal da desconfiança ocidental está na Lei de Inteligência Nacional da China de 2017, que obriga empresas e cidadãos chineses a cooperar com os serviços de segurança do Estado quando solicitado. Nenhum caso comprovado de espionagem via DJI foi tornado público, mas o risco potencial é suficiente para nações como EUA, Austrália e Índia banirem o uso das plataformas em contextos militares e governamentais.

O Brasil, ao seguir o caminho oposto, explicita uma posição estratégica distinta: a avaliação de custo-benefício operacional prevaleceu sobre as preocupações de soberania de dados.


Alternativas que o Brasil preteriu

O relatório do Coronel Araujo lista as alternativas ocidentais disponíveis no mercado:

  • Parrot ANAFI USA (França): opera completamente offline, sem envio de dados à nuvem, aprovado pelo Pentágono para uso militar.
  • Skydio X10D (EUA): integra inteligência artificial embarcada para navegação autônoma e consta da Blue UAS Cleared List do Departamento de Defesa americano.

No cenário nacional, o Brasil conta com fabricantes capacitados para atender demandas militares:

  • XMobots: desenvolve os drones Nauru 100D (UCAV), Nauru 500C ISR e Nauru 1000C, todos com foco em missões táticas e armazenamento local de dados.
  • SkyDrones: plataformas personalizadas com gestão de dados 100% em infraestrutura nacional.
  • Stella Tecnologia: produz os modelos Atobá e Albatroz Vortex, com turbina 100% nacional.

A opção pela DJI reflete, segundo analistas, a maturidade operacional e o custo mais baixo frente às alternativas — especialmente em um momento de orçamento de defesa pressionado. O analista caracteriza a decisão como um "paradoxo entre dependência e soberania tecnológica": o Brasil investe em desenvolvimento doméstico de drones militares enquanto consolida o uso de uma plataforma chinesa para missões sensíveis. Para uma análise mais ampla sobre as implicações do uso militar de drones, o ODrones publicou um texto sobre drones militares e o Direito Internacional Humanitário.


O que muda para o piloto brasileiro

Para pilotos civis, a Portaria nº 2.660/2026 não gera impacto direto. A decisão é estritamente institucional e diz respeito ao inventário de equipamentos da Força Terrestre.

O que o episódio revela é relevante para quem acompanha o mercado: a DJI mantém forte penetração no Brasil — tanto no segmento civil quanto, agora formalmente, no militar —, mesmo diante de pressões externas que levaram outras nações a abandonar a marca.

Para pilotos que consideram equipamentos profissionais para missões de inspeção, segurança ou mapeamento, vale acompanhar o debate em curso sobre privacidade de dados. O guia completo de drones DJI explica as diferenças entre cada linha do fabricante e os recursos de segurança disponíveis em cada modelo.

A tendência de curto prazo aponta para uma divisão no Brasil: adoção crescente de plataformas nacionais para contextos de maior criticidade de dados e manutenção da DJI como opção dominante para operações de menor sensibilidade.

Perguntas frequentes


Fontes: LRCA Defense Consulting | DroneDJ — DJI FCC US Launch Loss | DroneXL — DJI Ninth Circuit

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